Pneumo… o quê?
Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Assim mesmo, tudo junto, sem hífen, espaço ou vírgula. Uma só palavra. Com a insana quantidade de 46 letras, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico leva o prémio da palavra mais longa da língua portuguesa. Foi registada pela primeira vez em 2001 no dicionário Houaiss embora, actualmente, já esteja presente noutros dicionários. Num deles, online, pesquisei a palavra: relativo a pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Esclarecida, quem é que não sabe o que é pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose? Eu sei (digo eu, a armar-me em carapau de corrida). Sei, porque de seguida vem a informação — doença pulmonar causada pela inalação de cinzas vulcânicas.
Agora sim, esclarecida. Mas… como é que chegamos até aqui?
A nossa língua
O Português é uma das 3 línguas oficiais de Portugal (sendo as outras o Mirandês e a Língua Gestual Portuguesa). Pertence ao grupo das línguas românicas, que descendem do latim, e é filha do ramo itálico da família indo-europeia.

Teve origem no latim vulgar trazido pelos romanos para a Península Ibérica no século III a.C. Entre os povos que já habitavam a península e outros que vieram depois, a língua acabou por sofrer influências de celtas, iberos, fenícios, gregos, germanos ou árabes. Temos, por isso, palavras como cavalo, vassalo (celta), academia, helicóptero (grego), alface, azulejo (árabe), para dar apenas alguns exemplos.
Quando nasceu?
Marco Neves, no livro História do Português desde o Big Bang, vai desvendando o mistério: “Se usarmos o critério do nome da língua […] teremos de considerar que o português só nasce quando alguém lhe dá o nome de português. No entanto, quando tal aconteceu já a nossa língua, com características reconhecíveis, era falada havia muitos séculos. Se acharmos que uma língua nasce no momento em que se separa de outra, poderemos então dizer que o português nasceu quando se separou do galego. Mas quando foi isso? Já aconteceu? As línguas são como aquelas bactérias que se multiplicam através da divisão: surgem novas bactérias, é certo, mas nenhuma é mais antiga do que a outra – nenhuma é mãe da outra. As línguas são um bicho estranho. […] Os primeiros documentos oficiais também não serão o melhor critério: poderá ter havido outros, desaparecidos, e — mais uma vez — a língua já era falada. […] Voltemos à nossa pergunta: quando nasceu o português? Uma das respostas possíveis é dizer que as línguas não têm idade. As línguas mudam, passam por fases, vão-se sujeitando a diferentes normas, misturam-se e influenciam-se umas às outras. […] O português não nasceu — vai nascendo.”
Breve cronologia de um nascimento que foi nascendo
Período pré-românico: o latim, língua oficial de Roma, é levado por soldados para as regiões conquistadas
Românico: línguas que surgem do latim falado pelos soldados romanos e que originam dialectos que dão origem ao francês, espanhol e italiano. O português aparece no século XIII
Galaico-português: falado na Galiza e norte de Portugal, permanece até ao século XIV
Português arcaico: tem influência de dialectos árabes e do latim, sendo o idioma falado entre o século XIII e a primeira metade do século XVI
Português clássico e moderno: a partir do século XVI
Português, a língua de muitos
Em 2019, a 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO decide proclamar o dia 5 de Maio de cada ano como "Dia Mundial da Língua Portuguesa". É, desde 1986, uma das línguas oficiais da União Europeia. Dez anos depois surge a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Com cerca de 260 milhões de falantes no mundo é, também, a língua mais falada no hemisfério sul. Está presente em Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Timor-Leste, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Macau e, ainda, noutros lugares onde se desenvolveram crioulos de base portuguesa (ainda que alguns estejam quase desaparecidos) — são os crioulos da Alta Guiné, do Golfo da Guiné, os Indo-portugueses, Malaio-portugueses e Sino-portugueses.
Em termos internacionais, o português é reconhecido como língua oficial em várias organizações, como a União Europeia, Mercosul ou a Organização dos Estados Americanos.

Escritos - quem foram os primeiros?
Primeira gramática de português — Grammatica da Lingoagem Portugueza de Fernão de Oliveira, publicada em Lisboa em 27 de Janeiro de 1536
Documento mais antigo escrito em português — Pacto de Irmãos, terá sido escrito entre 1173 e 1174
Primeiro dicionário de língua portuguesa — Vocabulario portuguez e latino, publicado entre 1712 e 1721 pelo padre Rafael Bluteau (1638 – 1734)
Primeiro documento onde aparece a palavra “português” para designar a língua, 1430 – tradução do infante D. Pedro, do Livro dos Ofícios, de Cícero
E, para terminar, vamos palavrear
Bulhufas, perlimpimpim, estrambótico, esbardalhar, são algumas palavras do português moderno cuja sonoridade me faz sorrir. Há palavras que nos causam sensações de divertimento, parecendo fazer cócegas na língua. Outras há de desagrado - verruga ou furúnculo são exemplos, talvez também, admito, por não conseguir dissociá-las do significado. Há algumas, decididamente, irritantes: cônjuge. Confessem lá se a coisa não escorrega, de vez em quando, para cônjugue? E que dizer de tergiversar? Ora digam tergiversar 3 vezes depressa. Para terminar, deixo-vos com serendipidade e papoila. Porquê? Gosto delas. São harmonia envolta em caramelo. E vocês? Contem-me, palavreiem e murmurem as vossas palavras preferidas, as inimigas da boa dicção, as que vos animam o espírito ou, pelo contrário, desinquietam, ou as que vos irritam até à ponta dos cabelos. Ou só até à raiz, é com vocês.
Fontes:
Neves, Marco. História do Português desde o Big Bang. Guerra e Paz, Lisboa, 2021
Neves, Marco. Almanaque da Língua Portuguesa. Guerra e Paz, Lisboa, 2020
https://www.up.pt
https://www.instituto-camoes.pt/
https://www.todamateria.com.br
Créditos imagem árvore genealógica das línguas- Minna Sundberg.

Alexandra Maria Duarte
A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte
Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.
Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.
Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.
Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.
A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.
Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.
É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.



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