Anita Revisitada

A criança em nós

Por ocasião da celebração de mais um dia da criança, dei por mim a pensar na minha infância. Lembrei-me das brincadeiras na rua, à porta de casa, quando as horas se estendiam e as nossas mães já impacientes, do alto das janelas, nos chamavam para jantar. Jogávamos ao lenço, ao mata, às três pedras, saltávamos ao eixo (recordo um salto mal dado que me valeu um destemido rasgão nas calças), ao elástico (como é que conseguíamos saltar quase o tamanho da nossa altura)?

Recordei as actividades programadas no parque da cidade (naquela época, palco de toda e qualquer festa,) em que davam a cada criança um saquinho com um papo-seco e um pacote de leite e depois nos orientavam nas actividades lúdicas; lembro-me, sobretudo, de passar a tarde a pintar em folhas A4 que, gentilmente, nos proporcionavam. Era o que mais me agradava.

Evoquei, também, os livros que lia. Bom, alguns, pelo menos. Outros já estavam esquecidos; mas quando tropeço neles fazem-me sorrir: ena, o que eu gostava disto!

Sem dúvida, um nome que marcou a minha infância foi a Anita. Não sei se este nome significará muito para os mais novos. Hoje, a literatura infanto-juvenil reflecte uma variedade enorme de temas, de escritores, de géneros, que foi crescendo com os anos e com os hábitos. Esta literatura foi traçando o seu caminho adaptando-se às transformações sociais e atendendo as necessidades das crianças. Mas no meu tempo (credo, já cheguei ao “no meu tempo”), a escrita para crianças apresentava-se mais abreviada. Talvez por isso algumas colecções conseguissem maior destaque: Os Cinco, Os Sete, Anita, entre outros.

Bilhete de Identidade

Anita nasceu em 1954, na Bélgica, com o nome Martine, pelas mãos do poeta/escritor Gilbert Delahaye (19 Março 1923 – 6 Dezembro 1997) e Marcel Marlier (18 Novembro 1930 – 18 Janeiro 2011), artista/ilustrador. A história chamava-se Anita na Quinta (Martine à la ferme). Em Portugal, o primeiro livro foi editado em 1965, Anita Dona de Casa (admito, não adoro o nome). Ao todo, a colecção original conta já com 60 livros.

Ora, para quem não a conhece, a Anita é uma pequena de 5, 6 anos, que tem um irmão, o João, um cão, o Pantufa e um gato, Minuche. Os livros são retratos do quotidiano da menina que a nós, crianças dos anos 70, 80, nos pareciam verdadeiras aventuras. Não há sítio por onde ela não tenha andado, nem actividade que não tenha realizado: Anita na Escola, Anita Vai às Compras, Anita de Avião, Anita no Ballet, Anita Aprende a Nadar, Anita de Comboio, Anita Muda de Casa, Anita e a Visita de Estudo, são alguns exemplos. A nossa Anita é verdadeiramente ecléctica.

O que nos trouxe

Os livros resultam numa simbiose feliz entre narrativa e ilustração. Há, na verdade, quem diga que prevalecem as ilustrações, que se destacaram desde o início, quando comparadas com outros livros infantis da época; parecem pequenos quadros em folhas de papel.

A força das histórias reside na simplicidade e intemporalidade dos valores que se reconhecem: a amizade, a pureza das crianças, a generosidade, o amor das crianças pelos animais e pela natureza, a família. Mas se há valores intemporais, também há outros que requerem adaptação. Mudam-se os tempos, mudam-se as temáticas. Títulos como Anita Dona de Casa, Anita Mamã ou Anita na Cozinha, (anos 60/70) reflectem uma orientação que nem sempre agradou. Anita foi considerada sexista, conservadora, veiculadora de uma imagem retrógrada das mulheres. Os editores entenderam e adaptaram a protagonista aos tempos; mudou, por exemplo, a vestimenta, já usa calças e parece que até é ecologista.

Quem é Martine?

Em 2015, não recordo o dia, nem o mês, fui tomada por uma imensa tristeza — rebaptizaram a Anita, que passou a chamar-se Martine, tal como o original belga. Sim, senti que roubaram um pedacinho da minha memória afectiva livresca. Mas é apenas um nome, dirão. Não, para mim não é. Não tenho nada contra a Martine, mas não sei quem ela é. Não fui às compras com ela, não fui ao ballet, não passeamos juntas no parque. A editora Zero a Oito, que adquiriu os direitos da colecção em 2015, justificou a alteração do nome com a necessidade de uniformização. Como se as crianças só falassem uma língua. Quanto a vocês não sei, mas a mim faz-me espécie (acho muita piada a esta expressão), quando se fala em uniformização. O mundo não é uniforme; o mundo é uma amálgama de tudo e mais alguma coisa e pode ser esplendoroso na sua desuniformização. Não sei se também foi rebaptizada noutros países (sim, a nossa Anita é uma cidadã do mundo, permitam-me o clichê), mas originalmente era (ou ainda é) Martita em Espanha, Cristina, na Itália, Debbie, nos Estados Unidos, Mimmi, na Suécia, tendo ainda outros nomes em diferentes países. Para mim, será sempre a Anita.

Digam-me, qual foi o livro, personagem, história que marcou a vossa infância? Continuam a conhecê-la como antes? Sofreu alterações? Ainda mexe com vocês, como se tivessem 6 anos? Se assim for, fico feliz.

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte

Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.

Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.

Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.

Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.

A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.

Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.

É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

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