Chèr Mr. Poirot,
Espero que esta minha carta o encontre bem.
Há algum tempo que acompanho a sua carreira e hoje tomei a liberdade de lhe escrever, dado o sucesso da sua investigação relativa ao Crime no Expresso do Oriente.
Devo dizer-lhe que é uma história surpreendente. Ficamos presos à leitura assim que a questão “qual destas pessoas cometeu o crime?” aflora no nosso espírito. É sobretudo o facto de estarmos num ambiente fechado (o comboio), de onde o grupo não pode sair, que mantém o suspense e a desconfiança entre as personagens. Afinal, se não há mais ninguém, provavelmente o assassino estará entre eles.
Estou já a dar um grande salto, mas penso que parte da originalidade é o final. Nós leitores estamos habituados ao desenlace que apresenta um culpado, talvez dois. Não se espera que a culpa recaia sobre todos os passageiros do comboio. O modo como as pistas se vão revelando, as migalhas que a autora vai deixando, e que levam à descoberta de algum tipo de relação entre todas as personagens é, de facto, inesperado e original.
Não posso, também, deixar de referir os seus poderes de dedução baseados na sua capacidade de observação e compreensão do comportamento humano. São realmente extraordinários e permitem o desenvolvimento da trama. Posso dizer-lhe que desde o seu tempo até este meu, de onde lhe escrevo, a criminologia forense sofreu enormes avanços, permitindo a resolução dos casos e facilitando o trabalho das forças da autoridade. O Mr. Poirot não conta, no entanto, com esta ajuda, e depende em grande parte das suas “celulazinhas cinzentas”, como gosta de lhes chamar. Essa análise da psicologia comportamental é muito cativante.
As personagens são donas de uma personalidade muito própria sendo, contudo, muito diferentes — desde a classe social, passando pelo género, idade, até à nacionalidade. A personalidade de cada uma vai-se descobrindo através dos vários interrogatórios que o senhor lhes faz. As suas particularidades, as suas mentiras, o desejo de auto-preservação, mas também de protecção de umas personagens relativamente a outras, tudo vai sendo desvelado. A sua própria personagem, Mr. Poirot, é de tal modo extraordinária, que se equipara à da sua criadora.
Que mais poderei dizer? A obra apresenta temas que são intemporais. Desde logo o dilema moral — pessoas de boa índole cometem um crime. Continuam a ser caridosas? É justo fazerem justiça pelas próprias mãos? Estaremos, assim, a falar de justiça ou de vingança? Se tivermos em mente que o assassinado era o vilão, será justo punir aqueles que o castigaram? Outra questão prende-se com o facto de cada acção gerar uma consequência. O acto de um pode afectar outro ou, como neste caso, outros. Fazer o que se quer, sem olhar às consequências, é algo que ainda neste meu tempo continua a acontecer. A crença na impunidade é intemporal.
Por fim, é ainda de destacar o que consegue a união de um grupo em prol de um objectivo comum (seja ele positivo ou negativo, como é o caso). A percepção de um grupo formado por tão diversas personalidades, capaz de se organizar e trabalhar em conjunto é, de certa forma, uma mensagem de esperança (quando, claro, o objectivo é fazer o bem).
Já me alongo nesta carta Mr. Poirot, mas queria ainda referir a relevância do contexto cultural durante o qual a obra foi escrita. Dois anos antes da publicação, o filho bebé do conhecido aviador norte-americano Charles Lindbergh foi raptado e assassinado, ainda que o resgate tenha sido pago. O caso foi muito publicitado na época. Esta foi a base para iniciar a história. Entretanto, situamo-nos entre duas guerras mundiais, com todas as questões e tensões políticas que isso implica. O cenário — o Expresso do Oriente, a luxuosa linha de comboios, inaugurada em finais do século 19 e que acrescenta carisma à narração. Aqui encontramos a nobreza ou a realeza em viagem, juntamente com outras personagens de diferentes classes sociais. Não me parece possível no meu tempo; eu, pelo menos, acredito que nunca irei partilhar a carruagem de um comboio com qualquer príncipe ou princesa.
Mr. Poirot, creio ter tomado já demasiado do seu tempo. Desejo-lhe continuação de sucesso no decorrer das suas futuras investigações.
Despeço-me com saudações cordiais.
Alexandra Maria Duarte
PS – As adaptações ao cinema e televisão das obras onde a sua personagem é protagonista são magníficas.

Alexandra Maria Duarte
A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte
Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.
Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.
Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.
Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.
A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.
Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.
É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.



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