Carta do Patinho Feio

Querida Alexandra,

Obrigado pela tua carta, que mereceu toda a minha atenção. Tentarei responder às tuas questões o melhor que me for possível.

Desde já, fico muito feliz por saber que no dia 2 de Abril — dia do nascimento do meu autor — se comemora o Dia Internacional do Livro Infantil. É, realmente, uma bela homenagem. E muito merecida.

Talvez eu possa contar um pouco mais sobre ele, para os que ainda não o conhecem.

Hans Christian Andersen nasceu, como já referi, a 2 de Abril de 1805 em Odense, na Dinamarca e veio a falecer a 4 de Agosto de 1875 em Copenhaga, no mesmo país. Ele era um artista e, apesar de ser originário de uma família humilde, pôde estudar canto e dança. Mas, como sabes, foi a literatura que tornou o nome Hans Christian Andersen conhecido em todo o mundo. Escreveu vários géneros, relatos de viagens, poemas, romances.

Falando de viagens, e não vá eu esquecer-me, agradeço-te o envio do livro Uma visita em Portugal em 1866, escrito pelo Hans. Não sabia que o meu autor tinha visitado o teu país nem que tinha registado, num pequeno livro, as suas observações. Irei ler, com muita curiosidade.

Como dizia, ele era prolífero em vários géneros, mas foi na literatura infantil que se destacou. Escreveu mais de 150 contos, traduzidos por todo o mundo. Digo, com muito orgulho, que sou protagonista de um dos mais conhecidos: O Patinho Feio.

Quando se iniciou nos contos infantis, começou por basear-se nas tradições e no folclore dinamarquês, passando depois para os contos de fadas e para histórias onde a natureza fosse protagonista ou, pelo menos, desempenhasse papel relevante.

Em algumas histórias detecta-se uma vontade de desabafo, entendes, encontramos por ali um teor autobiográfico; o Soldadinho de Chumbo e o meu conto são exemplos disso.

Suponho que conheces a minha história; começo por ser um patinho feio, triste, rejeitado até pela própria família. No final, venho a descobrir que sou um belo cisne e que a verdadeira beleza está dentro de cada um de nós. O final feliz acontece porque decido acreditar em mim, aceitando as desigualdades que possa haver em relação aos outros. A diversidade não deve ser motivo de exclusão, mas sim de celebração.

Este era, aliás, um conceito que o Hans gostava de difundir, a ideia de aceitação. Talvez por se sentir sempre um pouco inadequado, tímido, tentou encontrar um modo de se libertar; e através da escrita conseguiu-o.

Nas histórias, Hans Christian Andersen utilizava muitas vezes as dualidades para transmitir as suas ideias: o forte e o fraco, o bonito e o feio, enaltecendo a importância de valorizar as diferenças e reconhecer o valor de cada indivíduo, independentemente da sua aparência ou origem.

Assim, adivinhamos, desde logo, o quão importantes são as histórias da literatura infantil. Colocavas-me uma questão na tua carta — qual a importância da leitura para a criança?

Penso que a criança, se levada a ler desde pequena, manifestará um crescimento mais salutar. Desde logo, é necessária a habituação ao livro enquanto objecto; devemos torná-lo normal, nosso amigo. De seguida surgem, de modo natural, os benefícios a vários níveis: cognitivo, emocional, social.

Ao ler, a criança aumenta e melhora o vocabulário, estimula a imaginação e a criatividade; desenvolve, também, o raciocínio e o pensamento crítico. Porque lhe são explicados através das histórias, aprende a lidar com conceitos que, por vezes, não entende e até receia. Simultaneamente, cria empatia já que, por vezes, se identifica com o outro e descobre ambientes, até então, desconhecidos.

Após a minha transformação (de patinho feio para cisne esplendoroso), tive tempo para pensar. Agora que os dias mais difíceis passaram, posso compreender melhor algumas questões. De facto, o desconhecido assusta-nos. O diferente assusta-nos. O que não compreendemos, assusta-nos. Mas é fundamental aprendermos a ultrapassar os nossos receios. Temos que sair da nossa casca e abraçar o que o outro nos oferece. Não esquecendo, ao mesmo tempo, que a nossa identidade é um direito e não devemos ter qualquer vergonha nisso.

Assim, através da leitura do conto onde sou protagonista (e de outros), as conclusões a que chegamos mostram o caminho.

E não esqueçamos a importância dos laços emocionais, que se fortalecem quando os pais ou outros mediadores lêem para os pequenos. É uma ligação que uma vez estabelecida, ficará para sempre nas memórias de miúdos e graúdos, como vocês dizem por aí.

Cara Alexandra, com isto me despeço.

Feliz Dia Internacional do Livro Infantil.

Até breve

Patinho Feio

(é apenas a minha assinatura, já não me considero assim)

Fontes: Porto Editora – Hans Christian Andersen.

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte

Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.

Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.

Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.

Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.

A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.

Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.

É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.

Alexandra Maria Duarte

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