Por ocasião do Dia Mundial do Gato, a 8 de Agosto, e Dia Mundial do Gato Preto, a 17, resolvi destacar algumas personagens felinas da literatura. Há muitas, mesmo muitas. Contactei alguns gatos, pedi-lhes que me enviassem umas palavras sobre as suas experiências enquanto personagens de histórias escritas por grandes mestres. Alguns responderam-me: o Gato Preto, de Edgar Allan Poe, o Gato do conto O Preço, de Neil Gaiman, o Gato Chester, de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e o Gato das Botas, de Charles Perrault. Deixo aqui algumas linhas que integram as cartas que me enviaram.

O meu autor escreveu este conto em 1843. Chamo-me Plutão e sou o Gato Preto. Na mitologia romana o deus Plutão é conhecido como “deus dos mortos (e das riquezas)”. Por aqui já se adivinhava alguma coisa. Deixem-me contar-vos a minha história. Até começa bem; sou um gato feliz, a viver com um casal simpático, que gosta de
animais. Contudo, passado algum tempo,começamos a perceber uma transfiguração no meu dono. Em parte devido ao álcool, de feliz homem casado passa a louco obsessivo e paranóico, projectando em mim a sua ira. Assistimos aos seus pensamentos caóticos, de desespero, mas também conscientes: “Quem não se surpreendeu cem vezes a cometer uma acção tola ou vil pela simples razão de saber que não se deve cometê-la?”,diz ele.E assim, acabei enforcado. Mas a história não acaba aqui...
O conto revela traços da literatura gótica, com o autor a fazer uso da psicologia do terror e do imaginário sobrenatural. Sobrenatural, sim. O segundo gato que o meu dono encontra, (quase igual a mim), deixa-nos num limbo, questionando se esse gato é, de facto, outro, se é a materialização do meu fantasma ou a corporização dos remorsos do narrador.
Devemos lembrar-nos do momento em que a história foi escrita: uma época que vivia as mudanças causadas pelo Iluminismo. A Igreja católica mostrava-se resistente; qualquer mudança era quase um pecado. Esses pecados extrapolaram-se de tal maneira que tiveram de ser simbolizados. De mim dizia-se “todos os gatos pretos são bruxas disfarçadas”; não é por isso, de estranhar, que o autor me tenha utilizado como personificação de algum demónio que o narrador precisava de exorcizar.
Posso ainda acrescentar que esta narração tem traços autobiográficos: também Poe lutou contra o álcool, também ele se deparou com dificuldades financeiras em algum momento da vida. Poderia esta narrativa ser uma espécie de catarse?
Sabem que mais? Leiam o conto.

Neste conto de terror, de 1998, o meu autor relata a experiência da família, que mora no campo e que, habitualmente, recolhe gatos que por lá aparecem. O cenário é sombrio, alvo de algum mistério - a casa está afastada da cidade e rodeada por densa
vegetação. Eu fiz o meu caminho até à entrada e fiquei por lá, à espreita. Era, na altura, um felino saudável, deaspecto a condizer. Apelidaram-me Gato Preto. Ali permaneci enquanto a família viajou durante uns dias. Surpreendi-os no regresso, pois não era o mesmo animal - estava agora ferido e maltratado. O autor recolheu-me e tratou de mim. Acomodou-me no porão; mas enquanto lá estivea família foi acometida por diversas agruras. Miei pela minha liberdade, para passar as noites à entrada da casa (de que outro modo poderia cumprir o meu propósito), e assim deixaram-me sair. As manhãs reencontravam-me ferido. O pai aceitou perder o sono e montar vigília, para entender o que se passava. É então que, certa noite, munido de binóculos infravermelhos, vê um vulto que entende ser o Diabo. Percebe, assim, o meu papel — sou o guardião da casa.
Este conto não tem diálogo e não é muito descritivo; trata-se de uma narração que vai evoluindo enquanto cria suspense e desperta no leitor variadas emoções. O próprio enredo prevalece pelo modo como vai criando tensão até ao final.
Existem pelo menos dois títulos que são invocados nesta história. Por analogia, somos lembrados de um irmão meu, O Gato Preto, de Edgar Allan Poe; depois, Paraíso Perdido, poema de John Milton, citado directamente na descrição do Diabo: “Eu nunca tinha visto o Diabo antes e, apesar de ter escrito sobre ele no passado, se me pressionassem, teria confessado que não acreditava nele, a não ser como uma figura imaginária, trágica e miltoniana. A figura que vinha pela entrada da garagem não era o Lúcifer de Milton. Era o Diabo.”
Não foi um papel fácil de desempenhar, como podem imaginar, mas penso que o fiz muito bem. As outras personagens são relativamente estáticas, no entanto, percebemos a sua humanidade, sobretudo na relação que se vai desenvolvendo entre o meu dono (autor e protagonista) e eu.
No final do conto, apresento-me magoado e mais ferido, mas enquanto vivo, luto e o demónio não se aproxima da casa. A questão na mente de todos, o desfecho em suspenso, jaz nas últimas palavras: “Gostaria de saber quem o mandou. E, egoísta e amedrontado, indago-me o quanto mais ele tem para dar.”

Gato de Chester, Gato de Cheshire, Gato que ri, enfim, sou conhecido por vários nomes. Ora bem, que posso dizer de mim? Geralmente sou colorido e tenho um sorriso de orelha a orelha, perdoem o clichê. Nenhum outro felino poderia ter desempenhado o papel como eu. Nem sei se houve outros gatos a concorrer, teriam perdido tempo. Quem mais teria esta
capacidade de sedesmaterializar deixando no ar apenas o sorriso. Isto já nasce connosco, sabem? E para fazer parte de Alice no País das Maravilhas, é preciso ser uma personagem, digamos, louca. Sim, parece-me que por estes lados todos têm o seu quê de absurdo. E o seu quê de simbólico. Eu represento o misticismo, o mistério. Embora personagem secundária, a minha dualidade revela-se essencial no desenvolvimento da história, modéstia à parte. Tanto sou capaz de brincadeiras e de provocações, como sou capaz de reflectir sobre o tempo e a existência (o que até traz uma certa aura intelectual à narração).A minha natureza filosófica e perspicaz confere-me um papel mais profundo, digamos assim.
Fantasia-se um pouco sobre a origem da minha personagem. Há quem diga que o meu autor se terá inspirado numa escultura do séc. XVI de um gato sorridente, esculpido na parede da Igreja de St. Wilfrid em Grappenhall, Cheshire, Inglaterra. Alguns historiadores acreditam que terei nascido devido a uma escultura da Igreja de São Pedro, em Croft, vila onde o pai de Lewis Carroll era reitor. Outra possível inspiração terá sido a raça de gatos British Shorthair; parece que o meu autor viu um desses gatos desenhado no rótulo de um queijo fabricado em Cheshire. Não se sabe ao certo.
Tal como não sei se estarei relacionado, mas gosto de pensar que sim, com a expressão inglesa "grin like a Cheshire cat" (sorrir como um gato de Cheshire, ou seja, exibir um enorme sorriso). Já ouviram? Segundo o Dicionário Brewer: "A expressão nunca foi satisfatoriamente comprovada, mas diz-se que o queijo anteriormente vendido em Cheshire era moldado como um gato que parecia estar sorrindo".
Incerto, mas orgulhoso e muito sorridente, despeço-me por agora e vou desaparecendo… desaparec… desap…

Olá, fiquei feliz por receber a tua carta e por saber que o meu conto é conhecido nos teus dias, ainda que em diferentes versões. Começo por te dizer que o meu autor, o francês Charles Perrault, escreveu este conto em 1697. Esta versão narra a história
do mais novo de três irmãos, que recebe um gato como herança de seu pai, moleiro. Depois de receber um par de botas, o gato consegue convencer um rei muito poderoso de que pertence a um fidalgo chamado Marquês de Carabás. Enganado, o rei concede a mão de sua filha ao dono do gato, ignorando que, de fidalgo, não tem nada.
Uma vez chamaram-me a atenção para o facto das personagens serem maioritariamente masculinas: o moleiro, os três filhos, eu gato, o rei. Pronto, ainda aparece uma princesa, mais para a frente. Ora, eu tenho um significado muito forte em várias culturas que costuma estar associado à mulher e ao mistério. Por exemplo, na cultura egípcia eu integro a Deusa Bastet, mulher com cabeça de gato. E, também, a deusa nórdica Freya, tinha uma carruagem puxada por dois gatos. Além disso, costumam associar-me à consciência e à independência. Podemos supor então que, neste conto, eu (apesar de ser macho) represento alguns aspectos do feminino reprimido: individualidade, independência, intuição, astúcia. Se quisermos trazer até um pouco de psicanálise, podemos teorizar que o filho do moleiro tentaria integrar aspectos femininos de seu ser através da simbologia do gato. Seria uma interpretação.
E já que falo de interpretações, posso dizer-te que houve outras versões desta história, antes de eu pisar o palco. Não as conheço muito bem, mas vou contar o que se ouve por aí.
Uma versão contava que o Gato de Botas, ou seja, eu, era um cavaleiro enfeitiçado; e para quebrar o feitiço, precisaria trazer fortuna a um humano e assim tornar-me homem novamente. Numa outra história, mais antiga, defendida por alguns estudiosos de Folclore, eu seria retratado como um escravo que deveria conseguir a mão de uma princesa para o meu amo, e assim poder-me libertar das correntes (aqui representadas pelas botas; diga-se de passagem que não nada confortáveis).
São fábulas interessantes, com algumas lições para aprender. Para as crianças, no entanto, sou apenas um gato divertido que usa botas e fico muito feliz com isso; mas confesso que preferia calçar umas pantufas.
Este texto não segue a grafia do novo AO
Fontes:
- https://medium.com/@jrcfaustino/edgar-allan-poe-o-gato-preto-an%C3%A1lise-do-conto-de8bc3f08828
- https://www.lettersforest.com/publicacoes/resenha-do-livro-o-gato-preto-de-edgar-allan-poe
- https://www.researchgate.net/publication/341214842
- https://segredosdomundo.r7.com/gato-de-chesire-alice/
- https://www.notibras.com/site/gato-de-botas-e-licao-sobre-separar-o-bem-do-mal/

Alexandra Maria Duarte
A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte
Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.
Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.
Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.
Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.
A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.
Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.
É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.



© Alexandra Maria Duarte IPolítica de PrivacidadeI Política de Cookies