No Mundo às Avessas

E foi assim que terminou

Mais um Natal às avessas,

Houve festa e alegria

E votos de um novo dia.

Mas o que é que terminou,

Se não soubemos de nada?

Ou está tudo ao contrário

Nesta história alucinada?

Sendo assim, comecemos,

Desta vez pelo final,

Pois é assim que se celebra

Mais um dia de Natal.

Venha a luz alumiar

Para ver o calendário,

Parece que até o ano

Se vai vivendo ao contrário.

De 25 para 24

Com tudo a que tem direito,

Temos o peru assado

Na mesa posta a preceito.

Mas eis que aqui se dá

O primeiro grande evento,

O peru, outrora morto,

Volta à vida, felizmente.

Sai de casa a saltitar

E abre a porta, entrementes,

Para o pai natal entrar

E ir tratar dos presentes.

Chega com o saco na mão

Enquanto come uma rabanada,

Rouba os presentes da árvore

Que o pai natal não dá nada.

Mas também não é tão mau,

Coitadas das criancinhas,

Não quer que elas se deitem

Com fome nas barriguinhas.

E tira, então, do bolso

Duas listas singulares

Não vão os meninos ter

Restrições alimentares.

«Come tudo, sim senhor,

Posso deixar as bolachas

Mais um copinho de leite

Para encher as bochechas».

Depois, pela chaminé,

Entra e começa a trepar,

O pai natal está em forma

Dizem que até vai treinar.

É esperado pelas renas

No trenó a pulular,

Há que ir a cada casa

Antes de a noite acabar.

E no fim, o que fazer

Com tanto presente assim?

É seguir para o pólo norte

Sem fazer grande chinfrim.

Já os elfos os aguardam

Na fábrica natalícia,

Desembrulham os presentes

Com toda a sua perícia.

Ficam, assim, arrumadinhos

Em estantes e prateleiras,

E o que vão fazer com eles?

Vão ser vendidos em feiras?

Onde é que isso já se viu

Mas que perguntas mal feitas,

Vão é ser encaminhados

Para o mundo às direitas,

Onde tudo corre bem

E nunca nada acaba mal,

Onde o início é o principio

E o fim é o final.

Mas o menino Jesus

Tão lindo e sofredor,

Que raio de história é esta

Sem o nosso salvador?

Saiu já da manjedoura,

Vai com Maria e José,

Mas já está bem crescidinho

Saiu pelo próprio pé.

Vão atrás dos três reis magos,

Que estão a fugir da estrela,

Ela é má como as cobras

E eles têm medo dela.

Vai a vaca e o burrico,

E uma ovelha modesta,

Vai ainda o peru

Que se quis juntar à festa.

Mal ele sabe o que o espera

No outro mundo, às direitas,

Vai ficar posto na mesa

E todos vão lamber as beiças.

Mas antes de lá chegar,

Milagres vão ocorrer;

Até chegar ao destino

Muito irá acontecer.

O burro leva Maria,

Que já não se sente bem,

O menino que andava

Voltou ao ventre de sua mãe.

Entretanto, a má da estrela

Acaba por perder o norte,

Os reis magos estão perdidos

E abandonados à sua sorte.

«Desta estrela nos safamos,

Mas precisamos de um guia;

Vamos sair das avessas,

Isto aqui é uma anarquia».

E chega ao fim o 24,

Que nem correu muito mal,

Vamos para o mundo às direitas,

Que vai começar o natal.

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte

Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.

Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.

Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.

Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.

A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.

Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.

É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

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