Olá, Pinóquio

Olá Pinóquios. Obrigada por me concederem esta entrevista.

Pinóquio 1ª versão - Olá, muito gosto em estar aqui.

Pinóquio 2ª versão - Olá! Não tens de quê, na verdade sinto-me uma estrela.

Apesar de serem o mesmo, temos aqui o Pinóquio da versão original e aquele que se tornou popular e mais conhecido. Não há quem não conheça o vosso nome. Mas vou tratar-vos por tu, uma vez que representam a mesma personagem, pode ser? Começo por referir aquela característica que te torna tão peculiar e que, de certo modo, se molda ao dia de hoje .

A sério? Qual? Sabes que sou cheio de características. Que dia é hoje, não me digas que fazes anos?

Não, não. Hoje é dia 1 de Abril, também conhecido como Dia das Mentiras.

Olha, não sabia… espera lá, estás a chamar-me mentiroso? Eu, que nunca disse uma mentira em toda a minha curta vida?

Pinóquio… o teu nariz… está a crescer.

Ups… quer dizer, uma mentira de vez em quando… assim, pequenina, mas só em caso de absoluta necessidade...

Continua a crescer.

Bolas.

Claro que tu és muito mais do que o teu nariz. Começo por te perguntar onde nasceste e quando.

Ora bem, nasci em 1883, em Florença. Sabes, na Itália. O meu autor foi o Carlo Collodi, cujo apelido era, na verdade, Lorenzini. Collodi é o nome da cidade onde a mãe nasceu.

E o teu nome, alguma vez te disseram porque te chamas Pinóquio?

Nunca me disseram, por isso não posso confirmar. Há quem ache que teve a ver com o prefixo pin, de Pino, que é diminutivo de Giusepino, que vai dar a Giuseppe, e depois a Geppetto. Mais ou menos assim, parece-me.

Outros dizem que o meu nome vem da palavra pinolo que significa pinhão em italiano. Achas que pareço um pinhão?

É simbólico, há quem ache que representas uma semente, que acabará por desabrochar e tornar-se num ser mais completo e desenvolvido.

Ena, achas? Isso soa-me bem.

Pois, alguns dizem que toda a minha jornada é, de facto, simbólica, representa uma metamorfose, um renascimento, no fundo, um Pinóquio que precisa de ser lapidado, digamos assim. Passa de menino inconsciente e rebelde a ser humano generoso.

Assim é. Felizmente tiveste ajuda nesse processo, começando por Geppetto.

Sim, o meu pai. Era carpinteiro, sabias? Foi ele que me criou.

E que te enviou para a escola, para estudares.

E estudei, sempre fui muito bom aluno.

O nariz…

Bolas… outra vez. Muito bem, realmente eu não queria ir à escola e acabei por meter-me em várias encrencas.

É verdade, a tua história está repleta de aventuras e desventuras. Conta-nos um pouco.

Ora bem, menti para o meu pai, deixei-me enganar por um par de patifes que me roubaram uma moedas, numa ocasião transformei-me em burro, noutra fui parar ao estômago de um peixe gigante, onde acabei por encontrar o meu pai que andava à minha procura. Enfim, coisas assim.

Preferiste ignorar quem tinhas ao teu lado e te tentou ajudar. Porque não acatavas os conselhos do Geppetto, do Grilo Falante ou da Fada Azul?

Ah, o meu Grilo, a minha consciência. Às vezes é tão agradável desobedecer e não ouvir a voz da razão. Eu sou uma criança, quer dizer, um boneco de madeira, mas, ainda assim, uma criança. Não quero responsabilidades, quero divertir-me, dormir, comer, brincar.

E, de facto, a tua história tem divertido crianças e também os mais crescidos, ao longo dos tempos. Mas nem sempre foi assim, não é verdade? Pinóquio da primeira versão da história, o que nos podes dizer desses tempos?

Ora bem, as mudanças são comuns nos contos de fadas e nas histórias infantis que conhecemos hoje. Por vezes, a sua origem é muito diferente. A minha história, por exemplo, era mais crua, desagradável. Eu era descrito como malandro, impertinente, egoísta. A primeira versão era uma tragédia. Para teres ideia, nessa versão, eu chego a ser enforcado pelos dois bandidos que me enganaram. E, antes disso, vê lá, até esmaguei com o martelo o meu Grilo Falante. Isto não é história que se conte às crianças, não é verdade?

Porque achas que o Collodi escreveu isso?

Vou dizer-te o que me foi explicado pela Fada e pelo Grilo que eu, destas coisas, não percebo muito. Quando o Carlo Collodi escreveu a história, a Itália passava por uma época marcada pela segunda revolução industrial. Havia pobreza — basta ver o meu pai Geppetto —, analfabetismo, dos campos migrava-se para as cidades, onde se trabalhava desumanamente. Penso que o meu autor quis retratar de algum modo, o que se vivia — uma sociedade violenta, opressiva, indiferente.

Mas depois alterou a história, porque as pessoas não gostaram dessa versão.

Sim, fui eu que o convenci.

Pinóquio… o nariz está a crescer.

A sério, outra vez! Mas nem uma mentirinha sem importância? Está bem; a verdade é que a história foi alterada porque as pessoas não gostavam dessa primeira versão. Era muito violenta, assim, ele adaptou-a e transformou-a na história que hoje conhecemos.

E com grande sucesso. É uma bela fábula com a qual aprendemos algumas lições. O que achas que as crianças podem aprender com ela?

Ora bem, talvez entender a importância da família, para começar. Mesmo que não seja de sangue. Eu sou feito de madeira, o meu pai é de carne e osso e isso nunca foi problema, ele sempre tratou muito bem de mim. Ora, deixa ver que mais… suponho que podemos destacar, também, a importância das boas influências, daqueles que nos ajudam no nosso percurso e nos aconselham. Ah, e não esquecer a escola, há que estudar, o conhecimento torna-nos mais fortes (estou sempre a ouvir isso).

Muito bem, de facto evoluíste muito, desde o início da história. Parabéns! Então e não falta uma coisinha? Algo mais que o livro ensina, para além do que disseste?

Hum… não estou a ver…

O nariz Pinóquio, o nariz, lá vem ele!

Raios, está bem. Sim, é isso mesmo, é importante não mentir. Não nos leva a lado nenhum.

E quando leva, não vamos para sítios agradáveis. É isso mesmo, sejam honestos, verdadeiros e… pronto, é isso.

Concordo contigo Pinóquio, acabas por ser uma inspiração. Então, muito obrigada…

Espera lá....

Sim?

Então hoje não é dia das mentiras? Hoje é permitido uma mentirinha, certo?

Pois, mas já sabes, o nariz cresce-te, acaba por ser incómodo.

E a vocês encurta-vos as pernas, também não deve ser muito agradável. Mas mesmo assim, de vez em quando lá vem uma mentira, não é?

Desculpa, não estou a perceber.

Então não se diz que a mentira tem perna curta?

É verdade, sim, agora fizeste-me rir. Estás a ficar espertalhão. Em breve serás, como se costuma dizer, um homenzinho.

Obrigado.

Também agradeço.

Passado algum tempo após esta entrevista, recebi a notícia de que Pinóquio deixou de ser um boneco de madeira e passou a ser um menino de verdade.

Fontes - The Myth of Pinocchio, Nicolae Sfetcu; Roriz, João Pedro de Sá. Pinóquio: uma análise psicanalítica.

Crédito 2ª imagem: Getty Images/BBC News Brasil

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte

Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.

Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.

Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.

Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.

A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.

Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.

É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.

Alexandra Maria Duarte

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