Tsundoku - a arte de acumular livros e não os ler

Ikigai, Kaizen, Kintsugi, entre muitas outras, serão talvez palavras com as quais muitos de vós já se depararam. Os japoneses são fantásticos a apresentar vocábulos para qualificar filosofias de vida que visam a melhoria e bem-estar do ser humano.

Ikigai– «razão de viver», conceito que define uma procura constante de actividades que levam à satisfação individual e colectiva. Kaizen — «mudança para melhor», valoriza uma filosofia de melhoria contínua, da vida em geral, através de pequenos passos. Kintsugi — «emendar com ouro», refere-se a uma técnica de restauração de cerâmicas que utiliza laca ou cola misturadas com pó de ouro. Este conceito foi transposto para o ser humano e implica a aceitação e valorização das nossas cicatrizes e imperfeições que, afinal, fazem parte de nós e da nossa história. Conheço estes conceitos há já algum tempo. Mas basta uma simples pesquisa para encontrar muitos outros que seguem uma orientação semelhante.

Por mero acaso, encontrei recentemente outra palavra que me chamou a atenção – Tsundoku – «empilhar livros sem os ler». Eu sou dessas pessoas que tem montinhos por todo o lado sem, claro está, conseguir lê-los. A certa altura pensei, ok, quando a pilha ultrapassar a minha altura, páro de comprar livros. Nem que eu tivesse 1,80m; a pilha vai bem mais alta. Admito que, em tempos idos, houve algum stress; já para não falar nas perguntas: «Mas para que é que queres tantos livros? Por acaso vais ler isso tudo? Ainda por cima só acumulam pó» (pois, e os vossos bibelôs não).

Mas como é que isto funciona?

Partilho da opinião de que os livros não lidos são tão importantes como os lidos. «Mesmo quando não podemos lê-los, a presença dos livros que possuímos produz uma forma de êxtase: a compra de mais livros do os que podemos ler é nada menos que uma tentativa da alma de se aproximar do infinito», Alfred Edward Newton, (1864–1940). É um conceito auspicioso — a ideia de que acumular livros e não os ler poder ser benéfico para a saúde. A idealização de mundos infindos nas páginas não lidas, conhecimentos prontos a serem devorados, todos presentes ali, na nossa sala, quarto ou cozinha, oferecem-me uma sensação de imensa felicidade. Admito, sinto-me uma betinha, pertencente a uma minoria que partilha este estranho contentamento com outros betinhos, como se soubéssemos algo que o comum mortal não sabe.

A anti-biblioteca — heroína ou vilã?

O escritor libanês Nassim Nicholas Taleb, no livro A lógica do cisne negro (2007), apresenta-nos uma nova palavra — anti-biblioteca — ao referir Umberto Eco (1932-2016), cuja biblioteca era composta por cerca de 30.000 livros e que nos diz: «uma biblioteca pessoal não é um apêndice amplificador do ego, mas uma ferramenta de pesquisa […] uma biblioteca deveria conter aquilo que você não conhece tanto quanto as suas finanças permitirem. Você vai acumular mais conhecimento e mais livros conforme envelhece e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras olharão para você de forma ameaçadora. Na verdade, quanto mais você sabe, maiores são as fileiras de livros não lidos. Vamos chamar essa colecção de livros não lidos de ‘anti-bilioteca’.»

Vantagens e desvantagens

Afinal quem tem razão? Os benefícios sobrepõem-se aos malefícios neste acumular de páginas, capas e lombadas?

Os detractores do Tsundoku referem que este é um comportamento nocivo e descontrolado. Compramos por impulso, gastamos mais dinheiro do que devíamos, ficamos sem espaço nas estantes. Não damos atenção ao que compramos, valorizando a quantidade sobre a qualidade.

Eu, «tsondukeira» convicta, até presto atenção ao que compro. Não me vendo por uma capa ou por um título. Sou daquelas que lê a sinopse, a capa, a sobrecapa, as abas, até a ficha técnica. E, ainda assim, não resisto.

Vantagens? Vejamos, mais uma vez, o que diz Umberto Eco — «É tolice pensar que tem de ler todos os livros que compra, pois é tolice criticar aqueles que compram mais livros do que alguma vez conseguirão ler. Seria como dizer que deve usar todos os talheres ou óculos ou chaves de fenda ou brocas que comprou antes de comprar novos. Há coisas na vida que precisamos ter sempre em abundância, mesmo que usemos apenas uma pequena porção. Se, por exemplo, considerarmos os livros como medicamentos, para sentir-se melhor vai ao “armário dos remédios” e escolhe um livro. Não um aleatório, mas o livro certo para aquele momento. É por isso que você deve ter sempre uma escolha nutricional!»

Da minha parte, se me vêm falar do pó que se acumula nos livros e nas pilhas que vão crescendo, continuarei a afirmar orgulhosamente: não sou acumuladora, sou uma praticante de tsundoku!

E vocês? Praticam esta arte ou preocupam-se com o pó? Sentem-se reis do vosso castelo livresco ou desfalecem ante a visão de livros a mais?

Livros a mais? Nunca temos livros a mais — temos aqueles que escolheram entrar nas nossas vidas.

Alexandra Maria Duarte

A Cor das Palavras

Alexandra Maria Duarte

Albicastrense de gema, a rapariga das palavras sempre teve alguma dificuldade em dizê-las; gostava mais de as ler e de as escrever. De pequena adorava fazer ditados, porque nunca dava erros. Gostava de ver a história que alguém lhe contava, escrita no papel, com a sua pequena letra, certa e redondinha. Não imaginava, nessa altura, que algum dia poderia escrever histórias inventadas por ela mesma.

Começa a levar a escrita a sério quando começa a frequentar cursos de escrita criativa. Afinal a escrita não é tão fácil como parece e há muito para aprender.

Lança o seu primeiro conto não infantil — «Morte de Perdição» — em 2021, na colectânea Não vão os lobos voltar e no ano seguinte publica o primeiro conto infantil «Sarapinta Joaninha, quantas pintas pintas tu?» na colectânea Contos que contas tu.

Sendo ainda uma aprendiz, quer conhecer outros géneros narrativos e vai frequentando formações diversas: A Arte da Ficção, Escrita de Terror, Escrita de Thrillers, Escrita Jornalística, entre outras.

A par da escrita entende a importância fundamental da leitura. Como é costume dizer-se, o leitor não tem de ser escritor, mas o escritor tem de ser leitor.

Conta ter lido todos os seus livros quando chegar aos 99 anos. Vá, talvez aos 100.

É colaboradora na Revista Palavrar – Ler e escrever é resistir e é membro do Clube dos Writers, ambos nascidos na comunidade onde se iniciou na escrita em 2020. Faz parte da Equipa de redacção de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil.

Alexandra Maria Duarte

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